II POLÓNIA–PORTUGAL, 1-1
FICHA DO JOGO:
Número e Tipo de jogo: 201.º /
Fase Prévia do Campeonato do Mundo de 1978 (44)
Data: 29 de Outubro de 1977
Local:
Chorzow (Polónia)
Estádio:
Slaski
Assistência: 80 000
Árbitro: Walter Escheweiller (Alemanha Federal)
Resultado:
Polónia,
1 – Portugal, 1
Intervalo:
Derrota 1-0
PORTUGAL
(constituição da equipa em sistema táctico):
.Manuel
Bento (Benfica);
.Gabriel
(FC Porto), Humberto Coelho (Benfica), «cap.», João Laranjeira (Sporting) e
Alfredo Murça (FC Porto), depois, Vital (FC Porto);
.Octávio
Machado (FC Porto), “Toni” (Benfica), João Alves (Salamanca) e Fernando Chalana
(Benfica), depois, Seninho (FC Porto);
.Manuel
Fernandes (Sporting) e António Oliveira (FC Porto)
Seleccionador
Nacional: Júlio Cernadas Pereira (“Juca”)
ADVERSÁRIO
(POR SECTORES):
.Tomaszewski;
.Zmuda,
Wawrowski, Kasperczak e Maculewicz;
.Rudy,
Nawalka, Deyna, «cap.», depois, Erlich, e Masztaler, depois, Boniek;
.Szarmach
e Lato;
Seleccionador
adversário: Jacek Gmoch
Golos:
.1-0 (36 min.), por Deyna. Um golo muito estranho e feliz, obtido na marcação de um canto directo.
No lado esquerdo do ataque polaco, Deyna apontou o pontapé de canto, com a bola
a descrever um arco e a enganar o defesa português Gabriel, que, colocado ao
poste mais próximo, perdeu a noção da sua posição e permitiu que a bola
entrasse na baliza desguarnecida, pensando que o esférico se ia perder pela
linha do fundo.
.1-1
(61 min.), por Manuel Fernandes. Boa jogada dos portugueses, com a bola a
correr de Oliveira para Alves e deste para o corredor esquerdo, para Chalana
efectuar um cruzamento rasteiro que permitiu a Manuel Fernandes desviar a bola,
de forma subtil e oportuna, para a baliza polaca.
Homem
do jogo:
MANUEL
FERNANDES – O avançado português apresentou uma notável e constante capacidade
de luta e entrega ao jogo, sempre acreditando na vitória e talvez por isso
demonstrando grande iniciativa, complementada aliás com a habitual sagacidade e
frieza na sua função específica. O golo que marcou foi um bom exemplo destas
virtudes, pleno de oportunidade e sentido de antecipação. Durante a partida foi
sempre um perigo constante para a baliza adversária, vendo ainda um golo
ser-lhe anulado devido a um fora-de-jogo muito discutível. Manuel Fernandes foi
neste jogo o ponta-de-lança que tantas vezes fez falta ao seleccionado
português.
“A
melhor das actuações que o vimos fazer na equipa de todos nós”
Cruz
dos Santos,
In
A Bola, 31 Out. 1977
Como
jogaram os portugueses
Apesar
do resultado insuficiente em termos de qualificação, a verdade é que se tratou
de uma boa exibição da Selecção, prevalecendo a imagem de uma equipa coesa,
solidária, jogando muito “junta”, com os sectores bem interligados. Terá
faltado apenas outra profundidade ao futebol luso, que acusou o habitual
problema dos últimos trinta metros. E assim não é fácil ganhar jogos difíceis,
como este.
Começando
pela defesa, há que dizer que este sector esteve um pouco inseguro na primeira
parte, permitindo demasiadas veleidades aos rápidos e enérgicos avançados
contrários, os famosos Lato e Szarmach. Na segunda parte, tudo foi diferente, e
o perigo rondou por poucas vezes a baliza de Bento,
o que permitiu mesmo as subidas regulares dos laterais Gabriel e Murça,
apesar da entrada em campo de um
jovem promessa polaca, nada mais nada menos do que Boniek, futura estrela
cintilante do futebol mundial.
Também
o meio-campo luso foi subindo de produção conforme o tempo ia passando,
acabando por dominar pela astúcia e pela técnica a força “bruta” dos polacos.
Pena terá sido a incapacidade (física?) dos homens do miolo para pressionarem
mais à frente o seu adversário, na segunda parte. Isto apesar de nunca terem
faltado a imaginação e a garra a homens como Octávio, “Toni” e Alves. Menos inspirado estiveram as “gazuas” Chalana (que no fim do jogo se queixava de ganhar apenas trinta
contos por
mês... no Benfica), na primeira parte, e Seninho na
segunda.
Falta
falar da linha avançada, onde Oliveira
e
principalmente Manuel Fernandes enfrentaram
com
grande coragem o poder físico impressionantes dos seus adversários directos,
dando imenso trabalho a todos eles. Oliveira, que ainda tinha que dar ajuda ao
meio-campo, acusou o esforço despendido e nessa altura muita falta fez o
“indisposto” Jordão.
Títulos
da imprensa (jornalista/jornal/data/pág.):
“Polónia
qualificou-se mas...
Portugal:
A serenidade que calou o «Vulcão de Chorzow»”
In
A Bola, 31 Out. 1977
“Portugal
diz adeus ao Mundial de Futebol/78”
in
O Comércio do Porto, 30 Out. 1977
“Não
chores por nós, Argentina!...”
in
O Norte Desportivo, 30 Out. 1977
“Quando
são onze a formar uma equipa”
in
A Bola, 31 Out. 1977
“Um
canto directo afastou os portugueses”
in
Record, 30 Out. 1977
“«AA»
na Polónia: o empate (1-1) não serviu”
in
Equipa, 2 Nov. 1977
Citações
da imprensa (título de texto/jornalista/jornal/data/pág.):
“Um
golo sofrido em lance infeliz terá obstado (1-1) a uma vitória em que talvez só
‘Juca’ e os jogadores acreditavam.”
Cruz
dos Santos, enviado-especial
In
A Bola, 31 Out. 1977
“A
equipa começou a ser derrotada e destroçada na sua própria terra. Nunca mais
compreenderemos, no seu verdadeiro significado, o que representa para nós,
homens de futebol, a selecção de Portugal. Não é uma bola de trapos em que cada
um dá um pontapé. É uma coisa muito séria. No dia em que encaremos este assunto
com a noção real do que representa, veremos como a habilidade, o brio e o
querer dos nossos jogadores conseguirão resultados excepcionais, que estão ao
seu alcance, desde que a selecção de Portugal não seja encarada como uma
enjeitada.”
Alves
Teixeira, Director
In
O Norte Desportivo, 30 Out. 1977
“Estou
triste mas ao mesmo tempo também me sinto alegre. Isto, como é evidente, pela
exibição. De facto, parece que todos concordam que devíamos ter vencido a
partida.
A
eliminatória foi perdida nas Antas. Não quero culpar nem endereçar
responsabilidades a quem quer que seja, mas a verdade é esta.”
“Juca”,
seleccionador nacional
in
Record, 30 Out. 1977
“Ao
Campeonato do Mundo segue-se o da Europa, em 1978. Vamos pensar nele. Vamos
deixar-nos de «politiquices» e trabalhar em conjunto. Vamos pensar primeiro na
Selecção e depois no resto.”
José
Reis, enviado-especial
In
Equipa, 2 Nov. 1977
“Portugal,
que terá feito um dos melhores jogos dos últimos tempos, foi até onde pôde ir.
Não se podia exigir mais a uma selecção, com poucos dias de preparação, sem as
condições mínimas para discutir em pé de igualdade com o seu adversário. A
exibição que ontem efectuou traduz uma esperança que se terá que desenvolver
para que o passado recente seja desmentido pelo futuro próximo.”
In
O Comércio do Porto, 30 Out. 1977
CRÓNICA DO JOGO E SUA CONTEXTUALIZAÇÃO:
Um adeus anunciado
A
boa exibição lusa não chegou para impedir aquilo que se adivinhava: mais um
afastamento de um Mundial, após mais uma fase de apuramento marcada pela
irregularidade.
<Texto>Foi
numa noite de diluvio sobre a cidade do Porto, a 16 de Outubro de 1976, que se
começou a desenhar o afastamento de Portugal do Mundial da Argentina de 1978.
Num relvado das Antas transformado num lamaçal, a Selecção Nacional perdeu com
a Polónia por 2-0, complicando as contas portuguesas no seu grupo de
apuramento. Isto porque num grupo com apenas quatro equipas (Dinamarca e Chipre
completavam o rol de candidatos), o que implicava a realização de apenas seis
encontros, qualquer percalço tornava-se muito difícil de recuperar.
Principalmente se este sucedesse, como foi o caso, nos jogos frente a um dos
favoritos para o apuramento. Mas nem tudo estava ainda perdido, uma vez que
restavam ainda vários jogos no grupo. A seguir, a Selecção foi ao Chipre
vencer, fazendo o mesmo com a Dinamarca, já em Lisboa, abrindo uma janela de
esperança na qualificação.
As coisas no seio da Selecção complicaram-se com a
substituição do seleccionador nacional, José Maria Pedroto, por aquele que era
até então seu adjunto, “Juca”, em resultado da demissão apresentada pelo famoso
“Zé do Boné” a 22 de Setembro de 1977, por considerar insustentável a situação
que impedia os treinadores portugueses de assistirem gratuitamente aos jogos de
futebol em Portugal – demitiu-se assim da Selecção por solidariedade sindical.
No
entanto, poucos dias depois da controversa saída de
Pedroto, e já com “Juca” no comando dos destinos da equipa nacional, esta
venceu por 4-2 a Dinamarca, em Copenhaga (golos de Jordão, Manuel Fernandes,
Nené e Octávio Machado), numa noite desastrada do guarda-redes adversário,
naquele que foi o 200.º jogo da história da equipa nacional. Como Portugal já
vencera a Dinamarca em casa e o Chipre fora, era necessário que a equipa
nacional fosse vencer à Polónia para continuar a alentar um lugar no
Argentina-78.
Falta de organização desemboca em apelos milagreiros
Dias antes do decisivo embate
com a Polónia, agendado para
o sábado, 29 de Outubro, a imprensa lusa dava conta de uma arma secreta dos
polacos: imagine-se... um computador. Ou mais exactamente um “banco de dados”
de todos os jogadores adversários, criado por um engenheiro electrónico de seu
nome Jacek Gmoch, um ex-jogador do meio-campo do Legia Varsóvia. Alguns anos
antes, o seleccionado Gorsky chamou-o para seu adjunto e em conjunto decidiram
pôr a então quase desconhecida informática ao serviço do futebol. E tendo em
conta os resultados – que incluíram um terceiro lugar no Mundial-74, na
República Federal Alemã – esta era uma inovação bem sucedida. O futuro provaria
isso mesmo, com a crescente importância atribuída ao estudo das equipas e
jogadores adversários.
Por esta altura, as preocupações dos responsáveis pela
Selecção Nacional pareciam estar muito mais viradas para “dentro”,
designadamente devido à possibilidade de não poderem contar com o concurso do
influente médio do Salamanca, João Alves. Tudo porque Alves tinha que actuar
pelo seu clube em Sevilha, logo no dia seguinte ao jogo na Polónia. A questão
foi resolvida a contento do interesse de ambas as partes, fretando-se um avião
propositadamente para trazer Alves de volta, mas não deixou de envolver uma
grande polémica entre os responsáveis federativos portugueses e os do clube
espanhol.
Entre os dirigentes e jogadores da Selecção Nacional, assim
como entre os jornalistas, eram muito reduzidas as esperanças de vitória para o
jogo com a Polónia e ainda mais limitadas as expectativas em relação ao
apuramento para o Mundial. As explicações para tal postura eram fáceis de
encontrar. Por um lado, a situação de Portugal no grupo de apuramento era
realmente crítica – mesmo que vencesse na Polónia, digamos que por um golo de
diferença, estava obrigado a vencer, na última partida desta fase, a selecção
do Chipre, por nada mais, nada menos, do que dez golos de diferença. Por outro
lado, o clima que se vivia na Selecção não era o melhor, com a saída recente de
José Maria Pedroto, que criara um certo estilo de jogo, a dar origem a uma
grande instabilidade. Basta dizer que em quatro jogos foram utilizados 27
jogadores, sendo que apenas Nené e Manuel Fernandes foram totalistas nestas
partidas.
Para agravar tudo isto, a equipa nacional continuava a não
merecer a atenção necessária, principalmente pelos máximos responsáveis do
futebol português. Era de tal ordem a desesperança em relação à Selecção que
nem sequer foi interrompido o Campeonato Nacional da I Divisão, o que obrigou a
que se efectuasse um curto estágio de quatro dias com vista a preparar o
decisivo jogo com a Polónia. Apesar de todas estas condicionantes, alguns
jornais ainda reflectiam alguma esperança na qualificação, lembrando que o
impossível já tinha sucedido em 1965, quando Portugal bateu a Checoslováquia,
contrariando os prognósticos, e qualificando-se para o Mundial-66. Esperava-se
assim novo milagre... O prestigiado jornalista Alves Teixeira, em O Norte
Desportivo de 27 de Outubro, lançou mesmo um apelo curioso: “Deixem-nos sonhar,
briosos rapazes de Portugal!”
As esperanças num milagre diminuíram um pouco quando se
soube que o encontro fora transferido da capital Varsóvia, local inicialmente
previsto, para Chorzow, na região da Silésia, no sul do país, onde os polacos
tinham garantido um apoio mais inflamado, num estádio, o Slaski, que albergava
qualquer coisa como 100 mil espectadores. Esta alteração deveu-se,
principalmente, à boa exibição dos portugueses frente à Dinamarca, que causou
alguma apreensão entre as hostes polacas. Havia a superstição, entre os
dirigentes e adeptos polacos, que a Selecção da Polónia subia de rendimento
quando jogava em Chorzow, onde o público era particularmente aguerrido e muito
entusiasta, funcionando como um excelente “12.º” jogador para os polacos. Nesta
pequena cidade já tinham tombado selecções de renome, como a Inglaterra, a
Holanda (de Cruyff) ou a União Soviética. O técnico inglês Alf Ramsey, que
dirigiu a Inglaterra no Mundial-66, afirmara em tempos que em Chorzow “a
atmosfera e o barulho são aterrorizantes”, levando a que “qualquer equipa que
jogue ali, com a Polónia, perda forças”.
Para além da mudança do local do encontro,
o estágio da
Selecção da Polónia, que estava a decorrer em Kamien, fora meticulosamente
preparado, com a equipa portuguesa a ser estudada ao pormenor, através do
visionamento de vários jogos dos portugueses, em especial o último embate
frente à Dinamarca. A boa exibição de Portugal colocara em alerta os polacos,
que não descuraram nenhum pormenor apesar de apenas precisarem de um empate
para irem novamente a um Mundial, depois do brilharete da sua participação no
Mundial de 1974, na Alemanha.
Mas se a Polónia preparava tudo com muito rigor, à Selecção
Nacional Portuguesa só lhe sucediam problemas, muito por culpa da falta de
organização. Nem a viagem para a Polónia foi tranquila, sucedendo-se uma
catadupa de percalços que enervaram e cansaram os jogadores – a viagem entre
Lisboa e Varsóvia durou um total de 12 horas, que incluíram três mudanças de
avião e duas mudanças de autocarro. Na comitiva que às 7h00 da manhã de
quinta-feira, 27 de Outubro, faltavam apenas dois nomes habituais, Nené e
Fonseca, de fora por razões diferentes: o primeiro por opção técnica e o segundo
devido a uma microruptura.
Fim do sonho no “inferno” de Slaski
Tendo em conta toda a conjuntura negativa que
envolvia a
Selecção Nacional, deve dizer-se que a equipa portuguesa até se portou bastante
bem no relvado de Slaski, realizando uma excelente exibição e provando, mais
uma vez, que se não fosse o enorme défice de
organização e apoio, poderia muito bem alcançar outro tipo de sucessos
desportivos.
Num Estádio de Slaski a fervilhar de emoções (a percentagem
de portugueses a assistir em directo ao encontro era de 1 para 3.000 polacos),
num final de tarde de sábado, 29 de Outubro, com uma brisa suave e um ligeiro
nevoeiro, a equipa portuguesa foi recebida no relvado com uma monumental
assobiadela, vendo-se na assistência cartazes enormes que vaticinavam cabazadas
de 5-0 e 6-0 sobre Portugal. Neste ambiente infernal, em que se ouvia de forma
ensurdecedora “Polska! Polska! Polska!”, ninguém se espantou com as
dificuldades iniciais vividas pelos jogadores portugueses, perante o entusiasmo
frenético do público polaco, que criou um ambiente verdadeiramente
impressionante. Poucas vezes se terá visto, num jogo realizado num país do
Leste europeu (ainda para mais comunista), uma tal loucura colectiva a
propósito de um jogo de futebol. Os jogadores polacos, empurrados por tal
apoio, começaram bem a partida e carregaram sobre a defensiva lusa.
A equipa nacional patenteou,
desde logo, um estilo que não
era difícil de prever, assente em muitas cautelas defensivas, com a linha média
a colaborar quem nas manobras defensivas, quer nas ofensivas. Mas o estado do
terreno prejudicava grandemente as trocas de bolas portuguesas, apresentando-se
muito escorregadio, com os polacos a mostrarem-se perfeitamente adaptados ao
piso.
Até ao primeiro quarto de hora, a zona defensiva portuguesa
mostrou-se a alto nível, marcando em cima os adversários, primando pela
serenidade na hora de entrar ao adversário. E, quando era possível, alguns
elementos da defesa subiam para desequilibrar no ataque. Mas a Polónia não se
amedrontava, carregando jogo insistentemente sobre a baliza de Bento, dispondo
mesmo de uma boa ocasião por Lato, que rematou ao lado. Humberto Coelho e
Gabriel, apoiados por Murça, davam poucos espaços aos avançados polacos,
controlando com alguma facilidade a zona frontal da baliza. Na frente, Alves,
de quem se esperava sempre um lance de génio, estava algo apagado, assinando
ocasionalmente alguns toques de luxo, mas pouco mais.
Apesar da intensa pressão polaca, os
portugueses reagiram
muito bem e rapidamente impuseram o seu jogo de passes curtos e triangulações
bem desenhadas, demonstrando uma clara superioridade técnica sobre os polacos,
que começaram a perder algum fulgor, embora a partir da meia hora de jogo
passassem por uma fase muito boa, com a dianteira polaca a actuar mais
desenvolta, infiltrando-se com demasia frequência na área lusa.
Foi exactamente nesta
fase de jogo que sucedeu o infeliz
tento polaco, decorria o minuto 36, na sequência de um canto directo, apontado
por Deyna, o “cérebro” da formação polaca – a bola passou entre o poste e o
defesa Gabriel, que estava a cobri-lo, sem que Bento nada pudesse fazer.
Gabriel ficaria completamente desolado, com as mãos na cabeça a olhar para o
céu, como que a pedir um perdão divino.
O golo abanou um pouco a equipa de “Juca”,
mas não caiu,
recuperando pouco a pouco o sangue frio e a determinação colectiva com que
entrara em campo. Com o golo polaco, abrandaram as preocupações defensivas
portuguesas, passando a actuar com maior pendor ofensivo. Manuel Fernandes
dispôs mesmo de uma oportunidade para o empate, rematando fraco, para as mãos
de Tomaszewski.
Nos últimos 10 minutos da primeira parte, os polacos
recuaram no terreno, pressentindo em parte o empate, que a acontecer não
espantaria ninguém, dado o caudal de jogo dos portugueses. Pode mesmo dizer-se
que o intervalo chegou com os portugueses já na liderança da partida, dominando
perfeitamente a situação, apesar de não terem praticamente disposto de lances
de golo iminente.
Esta conjuntura de domínio luso acentuou-se durante o
segundo tempo, que valha a verdade foi todo dos portugueses. Logo no primeiro
minuto do recomeço, Alves consegue abrir espaço à entrada da área, mas o remate
sai demasiado frouxo. Paulatinamente, o futebol apoiado dos portugueses dominou
o jogo físico e directo dos adversários e foi sem surpresa que apareceu o golo
de Manuel Fernandes, numa altura (minuto 61) em que Portugal estava virado para
o ataque. Alves, a actuar mais adiantado no terreno do que fizera na primeira
parte, e a exibir-se a melhor nível, pautava todo o jogo atacante português. O
mérito do lance de que resultou o empate pertenceu a Murça, que arrancou desde
a defesa, libertando-se de vários adversários e passando em hora oportuna,
dando a possibilidade a Manuel Fernandes de finalizar. No ataque, Chalana era
um jogador em destaque, desequilibrando em muitos lances, ao contrário de
António Oliveira, com dificuldades em se adaptar ao terreno de jogo.
A partir do golo do
empate, o que se assistiu foi a uma
maior preocupação polaca em defender o 1-1 (que lhes dava imediatamente o
apuramento para a Argentina) e a um enorme esforço luso de procurar o
indispensável golo da vitória. Justo será dizer que, apesar do esforço e do
espírito de luta e de equipa demonstrados, os portugueses estiveram longe de
praticar um futebol profundo, que possibilitasse o aparecimento regular de
ocasiões de golo. Com muito menos futebol, os polacos acabaram por criar mais
situações de concretização, enviando uma bola à barra da baliza de Bento e
desfrutando ainda de remates frontais muito perigosos. Os portugueses poderão
queixar-se ainda de dois lances duvidosos: um golo anulado por fora de jogo a
Manuel Fernandes e uma possível grande penalidade cometida sobre João Alves,
mas a verdade é que foram lances de juízo difícil, mas aceitável, do árbitro
alemão. Polémicas à parte, rumo ao Argentina-78 ia a melhor equipa do Grupo I,
a Polónia.
Desilusões por culpa própria
No final do jogo, ao nítido alívio polaco correspondeu
a
desilusão dos portugueses, com alguns deles a recolherem aos balneários sem
conseguirem esconder as lágrimas – os mais desolados eram Manuel Fernandes e
Alves, que choravam de forma inconsolável. Era o adeus definitivo a mais uma
fase final dum Mundial... Para a história da Selecção, a estatística piorava:
uma presença em dez tentativas...
Resta saber até que ponto alguns acontecimentos extra-jogo,
digamos assim, não terão tido um peso relevante neste desfecho. Falamos de
pormenores (quantas vezes fazem toda a diferença) e denunciadores de um quase amadorismo,
confrangedor a este nível, dos responsáveis máximos do futebol nacional. A
inadequação dos pítons das botas dos jogadores portugueses, que teimavam em
cair, muitas das vezes em situações de remate, ou os acontecimentos que
envolveram Jordão antes do início da partida são os exemplos mais flagrantes
desta falta de rigor que durante tantos anos caracterizou a organização dos
jogos da Selecção. O “caso Jordão” resultou da súbita “indisposição”
manifestada pelo jogador antes da partida começar, quando se encontrava já
equipado... Alegou estar com cólicas, manifestando-se incapaz de ir para o
banco de suplentes, sendo mesmo retirado dos convocados, perdendo-se assim uma
importante solução de ataque. E a verdade é que se revelaria uma pecha
importante na estratégia de “Juca”, que com certeza teria apostado no avançado
para a segunda parte. Nos jornais portugueses falou-se então de uma possível
zanga de Jordão ao saber que não iria ser titular...
No fundo, estes episódios eram demonstrativos
de graves lacunas
de organização, de profissionalismo, que a par das dificuldades anteriormente
descritas, deixavam pouco espaço de manobra para se alcançar o sucesso, anda
que existissem talentos notáveis entre os jogadores portugueses. Estes não
deixavam de referir a sua desilusão perante estas realidades, queixando-se da
falta de condições para fazer melhor. “Se fosse de igual para igual...”,
desabafou o seleccionador “Juca” após o jogo...
No rescaldo do encontro, os
jogadores vieram a público
queixarem-se dos dirigentes e dos responsáveis federativos, acusando-os de má
orientação e organização, não se importando de vender ou vergar o prestígio da
Selecção a qualquer capricho ou ambição clubística. O interesse dos principais
clubes nacionais sobrepunha-se às necessidades da Selecção Nacional, o mesmo
sucedendo com os adeptos de futebol, mais preocupados com as vitórias dos seus
clubes e com os interesses destes, do que com a Selecção. Só quando a equipa
nacional triunfava é que se gerava, repentinamente, um ambiente de euforia à
sua volta, passando então a ser a “nossa Selecção”. Ao seguinte desaire, nova
onda de críticas e desdém... A própria imprensa portuguesa navegava nas mesmas
águas, criando vagas que alternavam entre a euforia e o desânimo, em função das
vitórias ou das derrotas.
Quando às contas finais do Grupo
I de
apuramento para o Mundial-78, após esta eliminatória, a penúltima para os
portugueses e a última para os polacos, a Polónia conseguia definitivamente o
primeiro lugar, com 11 pontos em seis partidas disputadas, estando Portugal em
segundo, com 7 pontos, mais três que os dinamarqueses. A fechar vinha o Chipre,
com nenhum ponto em cinco partidas disputadas. Restava, assim, para completar o
calendário, o Portugal-Chipre, que de nada servia a nenhuma das equipas.